A enxaqueca é uma das doenças neurológicas mais frequentes e incapacitantes do mundo (sim, ela é uma doença!).
Aproximadamente 1 bilhão de pessoas no mundo sofrem com ela, particularmente as mulheres. É a segunda principal causa de incapacidade no trabalho em adultos, só perdendo para dor nas costas; e a primeira em pessoas com menos de 50 anos (justamente no período da vida em que são mais produtivas).
Como são os sintomas da enxaqueca:
1- Uma dor de cabeça latejante ou pulsátil, de um lado da cabeça ou ambos, podendo durar de 4 a 72 horas
2- Uma dor que piora com atividade física (que podem ser atividades comuns do dia a dia, como subir uma escada)
3- Pode vir com enjoo e vômitos
4- Fotofobia (sensibilidade com luz)
5- Fonofobia (sensibilidade ao som)
6- Osmofobia (intolerância a cheiros)
7- Muito comum ter dor e rigidez na nuca
A Aura da enxaqueca:
Um aspecto particular é a aura da enxaqueca, presente em aproximadamente 25% dos pacientes. São sintomas neurológicos transitórios e reversíveis que precedem a cefaleia:
•Distúrbios visuais (linhas em zigue-zague, pontos luminosos e pontos cegos)
•Dormência e formigamentos
•Dificuldade de fala e compreensão
Progressão em Fases:
Os ataques de enxaqueca progridem através de quatro fases:
Pródromo:
sintomas sutis horas antes (fadiga, alterações de humor, desejo por alimentos específicos como doces)
Aura:
se estiver presente, marca o início dos sintomas neurológicos reversíveis
Cefaleia:
dor moderada a grave
Fase pós-drômica:
recuperação gradual com fadiga residual
Epidemiologia: Dados da População Brasileira
No Brasil, os números da enxaqueca são preocupantes:
Ela afeta aproximadamente 15-18% da população, e a prevalência é significativamente maior em mulheres (aproximadamente 3 vezes mais que em homens).
Responsável por aproximadamente 4-5% das causas de cefaleia persistente em consultórios de neurologia.
O impacto econômico é substancial: perda de produtividade, dias de trabalho/escola perdidos, custos com medicações e atendimentos hospitalares.
Tipos de Enxaqueca na População Brasileira
A maioria dos pacientes brasileiros apresenta:
- Enxaqueca episódica: <15 dias de cefaleia por mês (aproximadamente 95% dos casos)
- Enxaqueca crônica: ≥15 dias de cefaleia/mês por ≥3 meses (aproximadamente 2,5% com progressão anual de episódica para crônica)
***Esses dados reforçam a importância das intervenções preventivas precoces.
Fisiopatologia: Por que a Enxaqueca Ocorre?
Compreender os mecanismos da enxaqueca é fundamental para entender as intervenções complementares:
A enxaqueca envolve a ativação do sistema trigeminovascular:
As fibras do nervo trigêmeo inervam a vasculatura intracraniana e as meninges (membranas que protegem nosso cérebro).
Essa ativação dispara uma cascata de substâncias inflamatórias.
Os sinais nociceptivos de dor são transmitidos através de neurônios do tronco encefálico e do tálamo até as áreas corticais de processamento da dor.
A molécula-chave é o CGRP (Peptídeo Relacionado ao Gene da Calcitonina), e a descoberta do seu papel revolucionou o desenvolvimento das terapias direcionadas, incluindo os chamados anticorpos monoclonais anti-CGRP.
E o mais fascinante é que a acupuntura também modula esse sistema, oferecendo uma alternativa não farmacológica para pacientes que não toleram ou preferem evitar medicações.
Depressão Cortical de Propagação:
A aura da enxaqueca é teoricamente explicada pela chamada depressão cortical de propagação: uma onda de despolarização que se espalha pelo córtex cerebral, causando os sintomas neurológicos característicos.
Os Desencadeadores comuns:
A maioria das pessoas com enxaqueca reconhece vários desencadeadores:
Desencadeador (Mulheres) (Homens)
Estresse 77% 69%
Luz brilhante 69% 63%
Privação de sono 60% 60%
Menstruação 78%
Álcool Variável Variável
Desidratação Comum Comum
Pular refeições Comum Comum
Um Detalhe Crucial: Sintomas Prodrômicos X Desencadeadores:
⚠️ Importante: Muitos desencadeadores percebidos pelas pessoas na verdade são sintomas prodrômicos (fadiga, vontade de alimentos específicos, alterações de humor).
Fatores de Progressão para Enxaqueca Crônica:
Certos fatores aumentam o risco de um paciente episódico evoluir para crônico:
- Abuso de medicamentos para dor
- Obesidade
- Transtornos do sono
- Depressão
- Ansiedade
O tratamento da enxaqueca se divide em:
- Agudo – nas crises
- Preventivo
As diretrizes de 2025 enfatizam as terapias combinadas nas crises de dor (triptanos e anti-inflamatórios).
*Medicamentos tomados logo no início da crise têm eficácia significativamente melhor no controle da dor.
O tratamento preventivo é indicado para pacientes com:
- Crises frequentes (>4/mês)
- Crises muito incapacitantes
- Falha no tratamento agudo
Existem hoje diversas opções de medicamentos, que podem ser usados sozinhos (em monoterapia) como combinados, sempre levando em consideração o perfil do paciente (idade, doenças prévias, outras medicações em uso, tolerabilidade).
Abordagens Não Farmacológicas
Evidências robustas apoiam múltiplas intervenções não farmacológicas:
Acupuntura:
combinada ao tratamento usual
Livre de efeitos colaterais sistêmicos
Ideal para pacientes que buscam reduzir medicações
Exercício
Benefício tanto com impacto alto quanto baixo
Melhora geral de bem-estar e reduz comorbidades (ansiedade, depressão, obesidade)
Terapias Comportamentais:
Terapia cognitivo-comportamental
Biofeedback
Treinamento de relaxamento
Neuromodulação
Estimulação magnética transcraniana (TMS)
Estimulação externa do nervo trigêmeo
Estimulação do nervo vago
Recomendações de Estilo de Vida: A Base de Tudo
Mesmo simples, essas recomendações têm impacto substantivo:
✅ Sono regular: previne privação de sono (desencadeador)
✅ Refeições em horários regulares: evita jejum prolongado
✅ Hidratação adequada: reduz desidratação (fator comum)
✅ Exercício regular: melhora saúde geral, reduz frequência de crises
✅ Manejo de peso: IMC elevado se correlaciona com frequência e severidade aumentadas
Todas essas mudanças podem prevenir progressão de episódica para crônica.
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