Enxaqueca em mulheres na fase reprodutiva: um desafio

A enxaqueca é especialmente comum entre 20 e 45 anos, período em que os hormônios flutuam e a vida costuma ser intensa (estudos, carreira, maternidade). Muitas mulheres sofrem e não é pouco, porém existem caminhos eficazes e seguros para controlar as crises e reduzir sua frequência, combinando medicamentos, estratégias comportamentais e terapias como a acupuntura.

O que muda nesta fase da vida?

Variações hormonais (principalmente a queda do estrogênio no período perimenstrual) aumentam a suscetibilidade a crises.
Planejamento reprodutivo, gravidez e amamentação exigem escolhas terapêuticas mais seguras.
Contraceptivos e risco vascular precisam ser considerados, sobretudo na enxaqueca com aura.

Tratamento agudo (o que fazer durante a crise)?

O objetivo é abortar a dor rapidamente, reduzir náuseas e impedir que a crise “desande”.

Estratégias imediatas (inicie na fase antes da dor, na aura ou nos primeiros minutos da dor):

Ambiente: escurecer o local, deixá-lo silencioso, se hidratar bastante, fazer compressa fria na testa.
Cafeína em pequena dose pode potencializar o efeito dos analgésicos em algumas pessoas (cuidado, evite excesso).
Respiração diafragmática, relaxamento muscular e atenção plena ajudam a reduzir a hipersensibilidade.

Medicamentos de primeira linha:

Analgésicos/AINEs: úteis em crises leves a moderadas; melhor resultado quando usados no início da dor.
Triptanos (ex.: sumatriptana, rizatriptana): padrão ouro para crises moderadas a graves, especialmente com náusea e fotofobia. Associar antiemético quando preciso.
Antieméticos (ex.: metoclopramida, domperidona): aliviam náusea/vômitos e aceleram esvaziamento gástrico, melhorando a absorção das medicações.
Gepants (ex.: ubrogepant, rimegepant): alternativa sem vasoconstrição; úteis quando triptanos falham ou são contraindicados >> ainda não disponíveis no Brasil.
Ditans (ex.: lasmiditan): opção sem vasoconstrição; atenção à sedação e à restrição de dirigir por algumas horas após o uso >> também ainda não disponíveis.

Neuromodulação:

Estimulação do nervo vago e do nervo trigêmio reduzem a dor e os sintomas associados aos fármacos.

Segurança em contexto reprodutivo:

Gravidez: priorize medidas não farmacológicas; paracetamol como primeira escolha; AINEs apenas com cautela e não no 3º trimestre; triptanos (sobretudo sumatriptana) têm dados observacionais razoáveis quando necessários.
Amamentação: paracetamol e ibuprofeno são compatíveis; sumatriptana geralmente aceitável; gepants/ditans com dados limitados.
Uso responsável para evitar cefaleia por uso excessivo de medicação. Se precisar de tratamento por >2 dias/semana, é hora de discutir profilaxia.

Tratamento profilático (prevenção contínua):

Indicado quando ≥4 dias de enxaqueca/mês, crises incapacitantes, uso frequente de medicação aguda ou preferência por reduzir recorrência.
Meta: reduzir pelo menos 50% dos dias de dor em 8–12 semanas.

Opções farmacológicas:

Anticorpos anti-CGRP (erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe, eptinezumabe): alta eficácia e boa tolerabilidade. Dados de segurança em gestação ainda limitados ( ideal é suspender antes de tentar engravidar).
Gepants preventivos (atogepant; rimegepant em esquema preventivo): via oral, bem tolerados.
Clássicos com boa relação custo-efetividade: Betabloqueadores (ex.: propranolol/metoprolol): observar hipotensão/fadiga.
Antidepressivos (ex.: amitriptilina, venlafaxina): valiosos quando há insônia, ansiedade e dor crônica associadas.
Topiramato: eficaz, porém teratogênico (evitar em tentativa de concepção e na gestação).

Suplementos e hábitos com evidência de apoio:

Magnésio, riboflavina (B2) e coenzima Q10: podem reduzir frequência e intensidade, com bom perfil de segurança.
Higiene do sono, regularidade alimentar, hidratação adequada, exercício aeróbico leve-moderado e manejo do estresse aumentam a eficácia do tratamento.

Neuromodulação preventiva:

Diminui dias de enxaqueca com segurança e boa adesão.

Acupuntura: papel central e integrativo

Por que funciona?

Modula o sistema trigeminovascular e a liberação de neurotransmissores envolvidos na dor (como CGRP e substância P), aumenta endorfinas e regula eixos autonômico e inflamatório. Em linguagem simples: diminui a “sensibilidade” do cérebro à dor e estabiliza o sistema que dispara a crise.

O que mostram os estudos:

Ensaios clínicos e meta-análises nas últimas décadas indicam redução de dias de enxaqueca, intensidade e uso de medicação, com resultados comparáveis a profiláticos farmacológicos em muitos cenários e perfil de segurança superior.
Benefícios adicionais: melhora do sono, ansiedade e qualidade de vida, fatores que potencializam a prevenção.

Quando é indicada:

Como primeira linha para quem prefere evitar fármacos.
Em combinação com medicamentos para potencializar resultados e permitir “de-escalonamento” de doses.
Em enxaqueca menstrual e na gestação, quando as opções farmacológicas são mais restritas.

Como é o protocolo na prática

Fase inicial: 1–2 sessões/semana por 4–6 semanas.
Consolidação: espaçamento progressivo (quinzenal → mensal), mantendo o ganho.
Enxaqueca menstrual: iniciar 7–10 dias antes do período suscetível e manter até alguns dias após, por 2–3 ciclos.
Efeitos adversos: geralmente leves (pequenos hematomas, sonolência/relaxamento). Segurança elevada quando realizada por médica(o) habilitada(o).

Enxaqueca menstrual: estratégias específicas

Profilaxia de curto prazo: triptanos de meia-vida longa (frovatriptana/naratriptana) e/ou AINEs (ex.: naproxeno) por 2–5 dias ao redor da menstruação.
Estrogênio transdérmico em curto prazo pode ajudar na queda hormonal (gatilho em mulheres sem aura), avaliando risco trombótico individual.
Contraceptivo combinado em regime contínuo/estendido: pode reduzir crises em quem não tem aura.
Importante: enxaqueca com aura → evitar estrogênio combinado; preferir métodos só com progestagênio (implante, SIU-levonorgestrel, pílula de progestagênio).

Gravidez e amamentação: escolhas seguras

Priorizar medidas não farmacológicas (acupuntura, higiene do sono, alimentação regular, hidratação, técnicas meditativas e corporais).
Paracetamol como primeiro passo; considerar triptanos selecionados quando necessário; evitar AINEs no 3º trimestre.
Evitar topiramato e valproato. Suspender mAbs anti-CGRP antes de engravidar por incerteza de segurança.
Na lactação, paracetamol/ibuprofeno são compatíveis; sumatriptana costuma ser aceitável; avaliar caso a caso outras opções.

Perguntas frequentes:

Em quanto tempo a profilaxia faz efeito? De 4–12 semanas para avaliar resposta; manter o que funciona por 6–12 meses antes de reduzir.
Dá para combinar acupuntura e remédios? Sim, e frequentemente é a melhor estratégia.
Preciso de exames? Na enxaqueca típica, geralmente não. Mudanças atípicas no padrão pedem reavaliação neurológica.

Conclusão:

O controle sustentável da enxaqueca na idade reprodutiva da mulher nasce da personalização: plano reprodutivo claro, tratamento agudo eficiente, profilaxia ajustada e acupuntura como pilar integrativo. O resultado esperado é menos crises, menor intensidade, menos remédio de resgate e mais qualidade de vida.

Não deixe a enxaqueca controlar sua vida!

Dra Karin Correa – CRM-SP 162815 /RQE Neurologia 66527/ RQE Acupuntura médica 233855